O LIVRODOS DIAS...
Acho que você não percebeu
Que o meu sorriso era sincero
Sou tão cínico às vezes
O tempo todo
Estou tentando me defender
Digam o que disserem
O mal do século é a solidão
Cada um de nós imerso em sua própria arrogância
Esperando por um pouco de afeição
Hoje não estava nada bem
Mas a tempestade me distrai
Gosto dos pingos de chuva
Dos relâmpagos e dos trovões
Hoje à tarde foi um dia bom
Saí prá caminhar com meu pai
Conversamos sobre coisas da vidaE tivemos um momento de paz
É de noite que tudo faz sentido
No silêncio eu não ouço meus gritos
E o que disserem
Meu pai sempre esteve esperando por mim
E o que disserem
Minha mãe sempre esteve esperando por mim
E o que disserem
Meus verdadeiros amigos sempre esperaram por mim
E o que disserem
Agora meu filho espera por mim
Estamos vivendo
E o que disserem os nossos dias serão para sempre.
Afeição, atenção, no fim das contas é tudo a mesma coisa. Queremos ser notados, queremos ser queridos, queremos ter quem nos ame, não queremos estar sozinhos. O mal do século é a solidão. Não é a AIDS, não é o câncer, não é a ganância absurda que faz um pisar sobre o outro pra conseguir subir na vida, não é a indiferença com que encaramos o sofrimento alheio, é simplesmente a solidão. "O homem é um ser político", da pólis, da convivência com outros seres humanos. E quem se priva disso não é "normal" – e afinal de contas o que é ser normal (A Claudia diz que é fazer 90º com um plano, e o Arael disse que o dia que achar alguém normal bota numa gaiola e leva pro circo)? Só que às vezes não nos privamos por livre e espontânea vontade do convívio dos outros seres humanos, principalmente dos seres que amamos. Seria burrice fazer isso. Às vezes as circunstâncias nos impelem a fazer escolhas que nos afastam das pessoas e nos deixam em ilhas cercadas de solidão por todos os lados. Às vezes, a única coisa que se quer é um ombro, um abraço, um sorriso. Mas não qualquer ombro, qualquer abraço, qualquer sorriso. Sim, queremos, precisamos disso tudo. Mas daqueles que amamos.
"O que pensar da vida e daqueles que sabemos que amamos...
quem pensa por si mesmo é livre, e ser livre é coisa muito séria...
não se pode fechar os olhos, não se pode olhar pra trás
sem se aprender alguma coisa pro futuro"
E a gente aprende... ah, aprende. Pela dor, mas aprende. Aprende a evitar situações que eventualmente nos farão sofrer. Aprende que, se você um dia vai ter que partir e começar do zero novamente, pra quê se arriscar a sofrer de novo? Pra que ter novos ombros, novos abraços, novos sorrisos se você sabe que eventualmente vai perdê-los, apesar de fazer esforço em contrário? Se você já sabe o desfecho, e sabe que não vai ser favorável, pra quê insistir?
Pra quê? Qual é o motivo disso tudo? Qual a razão do sofrimento? Se já se sabe que vai perder, pra quê tentar obter?
Às vezes surge a dúvida se esse não é exatamente o caminho da solidão. Não sei. Talvez seja. Mas há o medo, há a dúvida, há o clássico "pé atrás" da experiência vivida mostrando que as coisas não acontecem como você gostaria que fossem. Claro que não acontecem, isso não é filme nem novela nem livro da Danielle Steel, é vida real. E vida real vc sofre, se machuca, chora, sente dor e aprende com isso. E se você aprende, não incorre no mesmo erro novamente, certo? Errado. Eu já devia ter aprendido quando me mudei pro Paraná, pessoas que eu botava minha mão no fogo por elas simplesmente desapareceram. Do Paraná pra cá a mesma coisa. Só que agora eu aprendo. Aprendo a desistir, a abrir mão, quando vejo que não adianta tentar segurar. É aquela velha história, quem ama deixa livre, se o outro lado amar também, seguramente vai voltar. Só que dói pensar que as pessoas não amam, não se importam o suficiente a ponto de voltar. Porque isso mexe com meu maior medo, aquele que sempre coloco na pergunta "tenho medo..." no meu questionário. Que eu sou importante pra algumas pessoas, como o Du, minha mãe, a Clau, eventualmente a Vanessa Angélica, eu sei. Mas o erro de ter pensado que era importante pra mais uma cambada de gente e descobrir que não sou dói.
"Eu nem sei por que me sinto assim
Vem de repente um anjo triste perto de mim"
Normalmente o anjo vem, bate as asas, espalha um pouquinho de melancolia e depois acha alguém mais interessante sobre quem voejar. Mas dessa vez não, dessa vez ele "
fez casa no meu braço" e não quer ir embora. Acho que deve ter gostado da Lúthien, sei lá, mas ele não quer ir embora. Eu gostaria que ele fosse. Eu gostaria de não estar assim. Eu gostaria de estar sendo aquela criatura besteirenta, palhaça, que fala palavrão pra caramba e posta abobrinha pra fazer os outros rirem. Mas não tá dando. Eu gostaria de estar sendo racional e me manter feliz, percebendo que minha vida tá indo de vento em popa, que tou num puta emprego, com um puta salário (que vai aumentar, é mês de dissídio, oba), morando sozinha, finalmente tenho um gato, meu pc fica pronto essa semana (se os céus quiserem), tenho um namorado que eu amo muito e que (sem ser presunçosa) me ama também, minha mãe tá bem e eu não preciso me preocupar tanto com ela, mas não tá dando. Não dá pra ser racional quando você precisa conversar com alguém e a única coisa que te responde é o eco da sua própria voz nas paredes. Não dá pra ser racional quando o abraço do namorado que você quer está a 500 km de distância, o colo de mãe que você quer está a 1400 e a amiga com quem tomar cerveja está a 1200. Não dá. Não dá pra ser racional quando você pensa que todas as pessoas, ou da vida real ou do círculo de cartas – não tou considerando o fórum, tou cagando e andando praquilo dali ultimamente – estão todas longe de você. E que as pessoas que estão perto e faziam diferença não se lembram da sua existência. E aí o que você faz? Se interna no seu quarto e vai devorar um livro por dia pra esquecer das coisas que estão te fazendo falta e você não pode ter. Vai tomar iogurte no almoço porque não tem ânimo sequer de fazer comida. Vai passar o dia batendo perna em Belo Horizonte, olhando vitrine, andando em shopping, esse tipo de coisa fútil, porque não vai suportar passar o dia de folga em casa novamente. E quem sabe dessa maneira o dia passe mais rápido, quem sabe dessa maneira a noite chegue mais cedo e aquelas 24 horas acabem, e quem sabe dessa maneira chegue logo meia noite pra tarifa telefônica baratear e você poder falar com quem ama.
"só por hoje eu não quero mais chorar
só por hoje eu espero conseguir
aceitar o que passou e o que virá
(...)
posso até ficar triste se eu quiser
é só por hoje ao menos isso eu aprendi".
Bendito seja o programa de AA e suas 24 horas. A gente sempre pode suportar o que acontece em 24 horas. O problema é quando elas se repetem continuamente.
Nossa, esse post ficou muito depressivo. Preciso me tratar.
Vou chegar em casa e ouvir Legião. Hoje tou precisando.
Postado Por:
Laurelin Corsets às 9/15/2004 01:15:00 PM